Conheça os alimentos amigos da memória

Extraído do site do Globo repórter - 22/05/2009

Frutas, ovos, grãos e peixes contêm substâncias benéficas ao funcionamento dos neurônios. Em consequencia, a memória é uma das funções cerebrais aperfeiçoadas.

(GUACIRA MERLIN, Porto Alegre )

Gostosas, saudáveis e lindas. Não é à toa que as frutas são tão coloridas. A cor vem dos antioxidantes, substâncias que protegem os vegetais das agressões do sol, do frio e da poluição. Pesquisas mostram que uma delas, a fisetina, é benéfica também para a memória.

"Estudos em animais mostraram que os ratinhos lembravam de determinados objetos com maior facilidade e maior rapidez quanto tinham uma dieta rica em fisetina", revela a nutricionista Raquel Dias, da PUC do Rio Grande do Sul, que ensina a preparar um cardápio rico em fisetina e outros alimentos que fazem bem para o funcionamento das células nervosas, chamadas neurônios. A refeição inclui um antigo vilão das dietas, aos poucos reabilitado: o ovo. 

"Para quem não tem problemas de colesterol alto nem história familiar de hipocolesteronemia, não há problema nenhum em consumir ovo. Ele tem colina, uma substância presente na gema e que faz parte da membrana dos neurônios, fazendo com que eles funcionem melhor", explica a nutricionista.

Na cozinha, mãos à massa, que deve ser integral. "Os grãos integrais são ricos em vitaminas do Complexo B, que também são importantes pra o funcionamento adequado do nosso sistema nervoso central. A memória é uma das funções aperfeiçoadas", explica Raquel Dias.

Para acompanhar, um molho de tomate, rico em fisetina, a substância amiga da memória. O segundo prato é omelete com sardinha, peixe que tem ômega-3, um antioxidante poderoso que dá vitalidade para as células.

"No momento em que a célula nervosa funciona bem, todas as conexões, todos os neurotransmissores, todas as informações que devem passar de uma célula para outra, passam de maneira mais adequada e mais facilitada. Então, com certeza, vão atuar beneficamente na memória também", diz a nutricionista.

As estrelas do cardápio são as frutas, que têm vitaminas e muita fisetina. Maçã, laranja e morangos vão para o liquidificador.

"Podemos chamar de suco com as frutas da memória", conta Raquel Dias.

Uma dose extra de fisetina na sobremesa: uvas e kiwi frescos. Para completar a refeição, salada.

Os alimentos da memória passaram pelo teste da cozinha. A dona de casa Helena Rocha preparou as receitas e avaliou se são caras ou acessíveis, fáceis ou difíceis de fazer.

Para experimentar, alguém que precisa muito de boa memória: o estudante Pedro Ferreira, que está se preparando para o vestibular. Toda ajuda é bem-vinda! Ele luta por uma vaga em uma universidade federal.

Na cozinha, a avó fez a sua parte: em meia hora, tudo estava pronto. O almoço, que custou R$ 28, daria para pelo menos cinco pessoas.

"É rápido, bom e barato", constatou dona Helena.

Mas será que essa comida é saborosa? "Quando comemos quietos é porque a comida está boa", disse dona Helena, em meio ao silêncio durante a refeição.

Já que as frutas são amigas da boa memória, dona Helena ensina um truque para não desperdiçar: servi-las junto com os pratos principais. "Se deixarmos na cozinha, as frutas estragam e jogamos fora. E assim não. Temos que por na mesa. Porque temos preguiça de lavar, descascar. Com tudo prontinho, é só pegar um garfinho e por na boca", conta.

"É verdade, a preguiça é bem grande", confirma Pedro.

Cardápio aprovado. Os alimentos amigos da memória já fazem parte do ritual de preparação para o vestibular.

"Essa vai ser a desculpa. Vou dizer que estou com falta de memória!", diz Pedro.

"E a avó vai gostar, porque sardinha é barata", completa dona Helena.

Álcool é um dos inimigos mais agressivos da memória

Traumas, doenças e medicamentos também podem causar lesões irreversíveis no cérebro e prejudicar a capacidade de guardar informações.

Nascemos programados para esquecer. Mais cedo ou mais tarde, cada um de nós apagará da lembrança informações recentes, compromissos, conceitos, habilidades. A perda da memória é gradativa e determinada geneticamente com a morte das células nervosas em diferentes áreas do cérebro, provocada por um inimigo certo e igual a todos: o envelhecimento.

Ao longo da vida, muito antes mesmo de ficarmos velhos, nossa memória é atacada de diversas formas, sem que tenhamos um controle sobre isso. Traumas, doenças, medicamentos, exposições a componentes químicos podem causar lesões irreversíveis no cérebro. Mas muitas vezes nos tornamos aliados dos nossos inimigos com atitudes que tomamos conscientemente e, algumas vezes, com muito prazer.

Um dos inimigos mais agressivos é o álcool. Nas células nervosas, essa substância toma o lugar da glicose, mas não é capaz de produzir o mesmo volume de energia.

"Em uma intoxicação alcoólica leve, a pessoa tem diminuição de reflexo, do nível de atenção", explica o psiquiatra Eduardo Teixeira, da PUC de Campinas.

"Já aconteceu de, no dia seguinte, eu não me lembrar de nada. Não é normal, mas às vezes acontece", diz o estudante Bruno Bruscki.

Aos 22 anos, o instrutor de equitação Henrique Hoppmann, tem uma vida noturna agitada nos fins de semana.

"Quando eu vejo, tomei álcool demais", conta. Mas no dia seguinte... "Tenho muita dor de cabeça", descreve.

"Na infância e adolescência, o cérebro está em formação. Na adolescência, ele está quase formado, mas falta o capeamento das fibras. O abuso de álcool pode interferir nisso. No futuro, elas não vão ser o que poderiam. Não vão ter um nível de desempenho ágil e rápido do raciocínio, da memória, como deveriam", diz o neurologista Benito Damasceno, da Universidade de Campinas (Unicamp).

Um homem começou a beber com 18 anos. "Nós saíamos para um bar ou uma lanchonete e bebíamos para nos distrair e bater papo", conta. Hoje, aos 40 anos, ele tenta se livrar do alcoolismo que lhe tirou a família, o emprego, a saúde e, muitas vezes, a memória.

"Era para eu estar tranquilo e saudável. Com 40 anos, já estou perdendo a memória. Isso começou a me assustar muito", conta o homem.

"O álcool destrói as células nervosas. Por causa da dificuldade de absorção do intestino, devido à lesão causada pelo álcool, elas têm deficiência das vitaminas B1 e B12. E a deficiência dessas duas vitaminas vai provocar uma lesão adicional no cérebro, além da lesão que o próprio álcool produz", esclarece Benito Damasceno.

De acordo com os especialistas, a má alimentação é o segundo grande inimigo da memória. E ela também faz parte da rotina de Henrique. Ele troca refeições por salgados fritos. Gordura e altos níveis de colesterol têm um efeito direto na degeneração das células. Comer pouco ou muito açúcar também faz mal para a memória. Deixar de ingerir vitamina B1 também prejudica o funcionamento do cérebro. E ela é encontrada principalmente nos cereais.

De acordo com especialistas, o excesso de comida, seja ela qual for, também compromete a capacidade dos neurônios, porque ingerimos mais energia do que gastamos. Mas o que pouca gente sabe é que a forma como os alimentos são processados também pode provocar a liberação de toxinas que prejudicam o aprendizado e a memória. Os cuidados devem ser redobrados principalmente na hora de preparar alimentos que tenham proteína, como carnes e queijos.

"As crostinhas que se formam pelo excesso de calor são as concentrações de toxinas – as aminas heterociclicas que são produzidas em qualquer músculo pela queima de um composto chamado creatinina. Existem evidências científicas que mostram ser muito mais seguro o preparo controlando a temperatura de forma que a carne fique sem a formação de crostinhas", explica a professora de nutrição Semíramis Domene, da PUC de Campinas.

A própria panela é um risco. "Quando apertamos a carne contra o fundo da superfície que está aquecida e cheia de marquinhas que indicam combustão, há muito mais incorporação de toxinas no corte de carne", alerta a professora.

A principal dica é controlar a temperatura durante o cozimento. "Podemos usar uma pequena quantidade de óleo. O óleo vegetal é importante para a saúde das pessoas porque fornece ácidos graxos essenciais. É inadequada a impressão que se tem de que óleo faz mal sempre. O óleo queimado é que faz mal. Com a adição de temperos, como a cebola, conseguimos produzir um meio em que a temperatura vai ser controlada. Quem não gosta de cebola pode adicionar pequenas quantidades de água. Podemos utilizar um recipiente que permita que a gordura, ao derreter com o calor, pingue e esfrie. Uma assadeira que tenha água no fundo evita a formação de compostos tóxicos. Uma alternativa é embalar o corte de carne em papel-alumínio. Isso permite que a própria umidade do corte mantenha as condições de proteção para a formação de toxinas", explica Semíramis Domene.

Em meio à natureza, Henrique treina cavalos e ensina equitação. Mas tenta se equilibrar. Tem como chefe a própria mãe, ansiosa para ver o filho terminar os estudos. Há ainda a cobrança das outras mães: as dos alunos, principalmente nas competições.

"A cobrança vem em cima de resultados. Ganhar é maravilhoso. Mas não ganhar é trabalho em vão", diz Henrique.

Um cérebro submetido a obstáculos de estresse, má alimentação e eventuais excessos na bebida está sujeito a alguns tombos da memória.

"Eu me esqueço de levar o controle do portão, a chave. Então, acabo voltando", conta Henrique.

De mil pessoas que já passaram pela sala da Unicamp recentemente com sintomas de estresse, um terço delas reclamava de perdas de memória.

"Se alguém me contrariasse, era uma explosão só. E quando eu tinha esses chiliques, dava um branco em mim. Até que eu voltasse e tomasse consciência daquilo que eu tinha feito, ficava desmemoriada", conta a aposentada Dulce Prosperi.

Nas sessões de terapia, psicólogos ensinam técnicas de relaxamento que podem ser úteis para controlar o estresse. Tudo é gravado para, mais tarde, passar por uma avaliação mais minuciosa.

"Nós avaliamos comportamentos verbais e não verbais. Observamos se a pessoa está expressando irritabilidade, nervosismo, se ela está com raiva. Por isso, nós gravamos. Na gravação, temos algo palpável, objetivo e mensurável", diz a psicóloga Marilda Lipp.

Dona Maria Sílvia chegou depois de dois enfartes. Problemas de família a deixavam muito nervosa. Como não se alimentava direito, se tornou diabética. No auge da crise, os lapsos de memória eram frequentes. "Tenho que separar os remédios porque às vezes eu tomo repetido e isso faz mal", conta.

Além da terapia em grupo, dona Maria Sílvia tenta se recuperar relaxando o corpo na piscina, ativando a mente com o bordado e nos estudos, que retomou aos 55 anos. Lições que só agora ela consegue aprender e não quer que se apaguem da memória de jeito nenhum.

"Muitas coisas que eu não pensava aprender estou aprendendo agora", diz dona Maria Sílvia.

Afeto influencia a formação do cérebro - Crianças maltratadas na infância se tornam adultos esquecidos. E as que recebem mais carinho desenvolvem melhor as capacidades do cérebro.

O que há em comum entre um estudante que não consegue se lembrar de nada que aprendeu na aula e um adulto deprimido que se esquece das coisas mais elementares?

"Você faz uma lista de compras e, quando chega ao supermercado, descobre que deixou a lista em casa", conta uma mulher. O que ela não esquece, de jeito nenhum, é o passado difícil. Ela foi voluntária em um estudo que provou: as falhas de memória dos adultos podem ter origem na primeira infância.

Dormir bem para aprender - Sono ajudar a fixar informações e facilita o aprendizado, diz especialista.

Em entrevista, o professor de neurociências Sidarta Ribeiro, da Univdersidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), explica como o sono influencia positivamente o processo de aprendizagem das crianças. Segundo ele, a consolidação da memória acontece tanto na vigília quanto durante o sono. Por isso, a sesta depois da aula, dentro da escola, favorece a consolidação do conhecimento.

O professor também fala sobre a importância dos sonhos. Pessoas ansiosas tendem a ter pesadelos e, consequentemente, déficit de desempenho.

Receitas que ajudam a memória:

Frutas, ovos, grãos e peixes contêm substâncias benéficas ao funcionamento dos neurônios. Em consequencia, a memória é uma das funções cerebrais aperfeiçoadas.

TORTINHA COLORIDA DE SARDINHA COM OVOS

Ingredientes:

1 lata de sardinha
2 ovos
½ cebola picada
1 colher de sopa de pimentão vermelho
1 colher de sopa de pimentão amarelo
azeite de oliva
sal, orégano e tempero verde a gosto

Modo de Fazer:

Em uma frigideira antiaderente, coloque o azeite de oliva e refogue a cebola e a sardinha com uma pitada de sal e orégano. Em outro recipiente, bata com um garfo os dois ovos, adicionando também um pouco de sal e orégano. Assim que a sardinha e a cebola estiverem bem refogadas, acrescente os pimentões e os ovos batidos. Baixe o fogo, deixe dourar de um lado e depois vire para dourar do outro. Sirva a seguir, salpicando tempero verde por cima.

Sugestão: além dos pimentões, pode-se adicionar outros vegetais, como brócolis, cenoura e tomate.

Rendimento: de 1 a 2 porções.
Propriedades nutricionais: esta receita é rica em colina e ômega-3, nutrientes essenciais para o bom funcionamento do cérebro. A colina é abundante na gema do ovo e o ômega-3, nos peixes como a sardinha, o salmão e o atum. Os vegetais, além de conferirem cor e sabor, aumentam a quantidade de vitaminas e minerais da preparação.

MACARRÃO INTEGRAL COM MOLHO DE TOMATE

Ingredientes:

1 xícara de macarrão integral
2 tomates maduros sem pele picados
½ cebola picada
azeite de oliva
sal e ervas aromáticas a gosto

Modo de Fazer:

Cozinhe o macarrão em água fervente com uma pitada de sal e algumas gotas de azeite de oliva. Em uma panela à parte, refogue a cebola com o azeite, tempere com sal e ervas aromáticas a gosto. Acrescente o tomate, baixe o fogo até que ele se desmanche. Escorra a água do macarrão e sirva com o molho de tomate por cima.

Rendimento: 1 porção
Propriedades nutricionais: o macarrão integral, assim como os outros cereais integrais, é rico em vitaminas do Complexo B, importante para o fornecimento de energia e formação de neurotransmissores para o nosso cérebro. O tomate, além de possuir licopeno, um antioxidante natural que protege as células do nosso corpo, também possui fisetina, um fitoquímico que pode atuar beneficamente na memória.

SUCO COM FRUTAS DA MEMÓRIA

Ingredientes:

1 laranja ou ½ copo de suco de laranja
1 maça com casca
6 morangos

Modo de Fazer:

Higienizar bem todas as frutas, picar e bater tudo no liquidificador com um pouco de água e gelo.

Sugestão: pode-se acrescentar outras frutas com as mesmas propriedades, como o kiwi e a uva.

Rendimento: 2 copos
Propriedades nutricionais: essas frutas são ricas em fisetina, um fitoquímico que pode atuar beneficamente na memória.

Escrito por Nininh@ às 20h57
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